Por Paloma Nunes Oliveira
A escritora e pesquisadora Selma Maria da Silva transforma lembranças familiares em literatura no livro Trilhando Pertenças com a Família Silva, obra que reúne textos em prosa e poesia para narrar experiências de diferentes gerações de uma família negra brasileira. Publicado em 2023 pela editora Revista África e Africanidades, o livro percorre temas como ancestralidade, migração, educação, trabalho, amor e pertencimento, combinando relatos literários e fotografias de acervo familiar.
Ao longo das páginas, a autora constrói uma narrativa que ultrapassa a dimensão individual. As histórias da família Silva dialogam com processos mais amplos da formação social brasileira, especialmente aqueles relacionados às vivências da população negra ao longo dos séculos XX e XXI. O resultado é um mosaico de memórias que conecta experiências particulares a trajetórias coletivas.

Um dos textos centrais da obra é “Belmira, minha avó”, dedicado à avó materna da autora. A narrativa recupera a história de uma menina negra enviada ainda criança para trabalhar na casa de uma família no Rio de Janeiro. A personagem simboliza uma geração de mulheres que tiveram a infância interrompida pelo trabalho doméstico e pelo racismo estrutural, mas que mantiveram o desejo de garantir melhores oportunidades às gerações seguintes.
Outro aspecto presente no livro é a valorização dos saberes familiares. Em textos como “Rapa dura vó”, a autora transforma cenas simples do cotidiano em reflexões sobre solidariedade, escassez e partilha. A figura da avó reaparece como guardiã de memórias e responsável pela transmissão de valores que atravessam gerações.
As narrativas também exploram transformações sociais ocorridas ao longo das décadas. Em “Morro São José”, por exemplo, a autora aborda a ascensão educacional de mulheres negras, os desafios enfrentados pelas famílias trabalhadoras dos subúrbios cariocas e os conflitos entre expectativas tradicionais e projetos individuais de vida.
A obra dedica ainda espaço às experiências de deslocamento e mobilidade. O conto “Longe de Mim” acompanha uma personagem que deixa o Brasil para estudar na Guiana durante os anos 1980, trazendo à tona temas como formação acadêmica, intercâmbio cultural e relações afetivas atravessadas pela distância.
O amor e a constituição familiar aparecem em destaque nos textos reunidos sob o título “Cheiro de Zé”, que retratam décadas de convivência, conquistas, perdas e luto. A narrativa acompanha a trajetória de um casal negro que constrói patrimônio, cria os filhos e enfrenta adversidades, compondo um retrato sensível das relações familiares brasileiras.
Além da escrita, as fotografias presentes na publicação desempenham papel fundamental. Conforme destaca o prefácio da obra, os registros familiares contribuem para ampliar a representação das famílias negras na literatura e na memória social brasileira, oferecendo imagens que contrastam com estereótipos historicamente difundidos sobre a população negra.

Na apresentação do livro, o professor Roberto Carlos da Silva Borges observa que a obra promove um exercício de retorno às origens e de reflexão sobre ancestralidade, memória e pertencimento. Segundo ele, os relatos reunidos por Selma Maria despertam lembranças que, embora pessoais, encontram ressonância em diferentes leitores.
Ao reunir literatura, memória e documentação familiar, Trilhando Pertenças com a Família Silva insere-se em uma produção contemporânea que busca ampliar a visibilidade de narrativas negras e femininas no cenário literário brasileiro. Mais do que reconstruir a história de uma família, o livro propõe uma reflexão sobre os caminhos percorridos por diferentes gerações na construção de identidades, afetos e pertencimentos.
