Congresso aprova incentivos fiscais para atrair investimentos em data centers e coloca o Brasil na disputa por uma infraestrutura cada vez mais estratégica. Para especialistas, porém, ampliar a capacidade de armazenar e processar informações é apenas o primeiro passo para transformar dados em produtividade e melhores decisões.
O Brasil deu mais um passo para tentar ocupar uma posição de maior destaque na infraestrutura global da economia digital.
O Congresso Nacional aprovou um projeto que concede isenções de tributos federais para equipamentos destinados a data centers, numa tentativa de estimular novos investimentos no país. O texto, aprovado pelo Senado após passar pela Câmara dos Deputados, segue para sanção presidencial.
Entre os incentivos previstos estão isenções de PIS, Cofins, IPI e impostos de importação incidentes sobre determinados investimentos em tecnologia da informação utilizados pelo setor, incluindo servidores e sistemas de refrigeração.
A medida coloca o Brasil em uma disputa internacional que ganhou importância com a expansão da computação em nuvem, da análise de grandes volumes de dados e, mais recentemente, da inteligência artificial.
Mas por trás dos bilhões investidos em servidores, chips, sistemas de armazenamento e infraestrutura existe uma questão menos visível: o que as empresas efetivamente fazem com todos esses dados?
Para Guilherme Mattos, estatístico e mestre em Business Analytics pela Anderson University, nos Estados Unidos, a expansão da infraestrutura digital é importante, mas representa apenas uma parte da transformação.
“Data centers ampliam a capacidade de armazenar e processar informação. Mas capacidade tecnológica, sozinha, não transforma dados em resultado empresarial. Entre armazenar uma informação e utilizá-la para melhorar uma decisão existe um processo que envolve qualidade, organização, governança, análise e conhecimento do negócio.” — Guilherme Mattos
Data centers se tornam infraestrutura da nova economia
Durante décadas, infraestrutura econômica esteve associada principalmente a estradas, portos, aeroportos, energia e telecomunicações. A digitalização acrescentou uma nova camada.
Cada compra realizada pela internet, pagamento eletrônico, interação com clientes, operação logística, movimentação de estoque ou processo administrativo pode produzir novos registros.
Empresas acumulam históricos de vendas, faturamento, comportamento de consumidores, produtividade, custos e desempenho operacional.
Ao mesmo tempo, serviços de computação em nuvem e sistemas de inteligência artificial aumentam a demanda por capacidade computacional.
É nesse ambiente que os data centers assumem papel estratégico. Essas instalações concentram servidores, equipamentos de armazenamento, redes, sistemas de refrigeração e toda uma infraestrutura necessária para manter serviços digitais funcionando continuamente.
A aposta brasileira é que os incentivos possam ajudar o país a receber uma parcela maior desses investimentos.
Mais infraestrutura significa mais inteligência?
Não necessariamente.
Uma empresa pode armazenar milhões de registros e ainda ter dificuldade para responder perguntas aparentemente simples: qual produto realmente oferece a melhor margem? Onde estão os maiores desperdícios? Quais clientes apresentam maior risco de cancelamento? Por que determinado processo está ficando mais caro? Onde estão ocorrendo erros recorrentes de faturamento? Quais indicadores deveriam receber a atenção dos gestores?
É nesse ponto que a discussão deixa a infraestrutura física e entra no campo de Business Analytics e Operational Intelligence.
Na prática, isso significa conectar informações que muitas vezes estão espalhadas pela organização. Vendas podem utilizar um sistema. O financeiro, outro. O atendimento ao cliente mantém seus próprios registros. A operação acompanha indicadores específicos. Outros controles continuam sendo realizados em planilhas.
Quanto maior a quantidade de informação produzida, maior pode se tornar o problema caso não exista uma estrutura adequada para organizá-la.
O desafio da qualidade dos dados
Essa transformação também depende de uma questão aparentemente básica: é possível confiar nos dados?
Duas áreas da mesma companhia podem utilizar definições diferentes para o mesmo indicador. Registros podem estar duplicados. Informações podem estar desatualizadas. Sistemas podem não conversar entre si.
Quando isso acontece, mais capacidade computacional não resolve necessariamente o problema. Pode apenas permitir que informações problemáticas sejam processadas em maior velocidade.
É por isso que Data Governance — ou governança de dados — passou a ocupar espaço maior nas discussões empresariais. A governança procura estabelecer, entre outras questões, responsabilidades, padrões, definições e critérios para que as informações possam ser utilizadas de maneira consistente dentro da organização.
Inteligência artificial aumenta a pressão
A expansão da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais relevante. Sistemas capazes de analisar informações, identificar padrões e auxiliar decisões empresariais dependem dos dados aos quais têm acesso.
Isso significa que a corrida atual não ocorre apenas por chips, modelos de IA ou data centers. Existe também uma corrida silenciosa pela qualidade da informação.
Uma organização que possui dados estruturados, confiáveis e conectados aos seus processos pode estar em posição muito diferente de outra que acumulou enormes volumes de registros fragmentados.
“Antes de perguntar qual ferramenta de inteligência artificial utilizar, a empresa deveria perguntar quais decisões pretende melhorar, quais problemas precisa resolver e quais dados sustentam essas decisões. A tecnologia entra depois para ampliar uma capacidade que precisa estar conectada ao negócio.”
— Guilherme Mattos

A distinção é importante porque evita tratar inteligência artificial como solução automática para problemas empresariais. Um algoritmo pode analisar milhares de informações rapidamente. Mas ainda será necessário definir quais informações importam, quais indicadores fazem sentido e qual decisão deverá ser tomada a partir do resultado.
Oportunidade também para pequenas e médias empresas
Embora investimentos bilionários em data centers normalmente envolvam grandes grupos de tecnologia, os efeitos da expansão da infraestrutura digital podem chegar a empresas muito menores.
Uma pequena indústria não precisa possuir seu próprio data center. Uma distribuidora regional também não. Serviços de computação em nuvem permitem que empresas tenham acesso a capacidade de armazenamento e processamento que, décadas atrás, exigiria investimentos elevados em infraestrutura própria.
Isso democratiza parte da tecnologia. Mas não elimina o desafio analítico.
Uma empresa de serviços pode utilizar dados para compreender produtividade e rentabilidade por cliente. Uma distribuidora pode analisar padrões de demanda e estoque. Uma indústria pode identificar gargalos e desperdícios. Um varejista pode cruzar vendas, margem e comportamento de consumidores.
Nesse sentido, a sofisticação não está necessariamente na quantidade de tecnologia utilizada, mas na capacidade de conectar dados, problemas e decisões.
Do data center à decisão
A aprovação dos incentivos fiscais pelo Congresso brasileiro chama atenção para uma transformação estrutural.
Se os investimentos esperados se concretizarem, o país poderá ampliar sua capacidade de hospedar e processar uma parcela maior da infraestrutura necessária à economia digital.
Mas a cadeia de geração de valor não termina dentro de um prédio cheio de servidores.
O data center armazena. A infraestrutura processa. Os sistemas organizam. A análise interpreta. E alguém ainda precisa transformar essa interpretação em uma decisão.
É justamente nessa última parte da cadeia que Mattos acredita que muitas empresas ainda possuem espaço para avançar.
A política brasileira para data centers, portanto, pode ser vista como parte de uma transformação muito maior.
O país está discutindo onde os dados serão armazenados e processados.
Para as empresas, a próxima pergunta talvez seja ainda mais importante: como transformar toda essa infraestrutura em melhores decisões, maior eficiência e produtividade?
